segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Economista Chefe do Banco Mundial e o puzzle mocambicano: O Sistema Financeiro (2)

"Como Mocambique pode manter taxas de crecimento elevados com um sistema financeiro tao pouco abrangente, com tantas lacunas?" - eh essencialmente o puzzle que Shanta identifica em Mocambique.

No post anterir descrevemos os principais factores criticos que fizeram c0m que o Pais pudesse manter esses ritmos de crescimento ate ao momento: (i) baixos niveis, ou pontos de partida; (ii) peso elevado dos poucos Mega-Projectos no crescimento PIB; (iii) expansao da agricultura, principalmente em extensao, e nao em aumentos de produtividade; (iv) economia da droga e de branqueamento de rendimentos de outras actividades ilicitas - este ultimo factor tem sido pouco mencionado, relativo aos outros, como o peso dos mega-projectos.

A pregunta que o Shanta levanta - entao se torna claro - nao se torna relevante senao quando os efeitos dos quatro factores mencionados se comecarem a se esgotar no espaco economico mocambicano. E quanto a isso pode-se comentar o seguinte:

a) baixos niveis de partida - de facto ainda nao se atingiram os niveis do pre-guerra (1978-79) - para nao mencionar nos niveis mais altos jamais aingidos pela economia mocambicana (1973). Assim, pequenos encrementos absolutos de valor acrescentado vao constituir percentagens grandes de crescimento enquanto as bases de partida continuarem baixas. Contudo, este factor pela sua natureza tem limites temporais definidos.

b) peso dos mega-projectos - esta tem sido a estrategia principal do Pais, pode-se dizer que desde os prinmeiros planos pos-Independencia, o PPI, e os PECs anuais se pretendiam desdobrar o PPI todos. Quando a guerra comecou a tomar proporcoes tais que inviabilizaram muitos dos mega-projectos que se tinham iniciado, pivotados por mega empresas - ou complexos - estatais, o cresciemento comecou a reduzir atte que se tornou negativo. So se pode falar de uma verdadeira reversao da tendencia no pos-guerra (apesar de os numeros mostrarem crescimentos positivos apos 1987, data de introducao do PRE e dos programas de ajustamento estrutural - estes numeros devem ser interpretados com muito cepticismo). E nao se pode dizer que, apos a recuperacao da linhas da HCB, a Mozal e a Sasol - que acrescentam apenas cerca de 5000 empregos no seu conjunto - e das criticas para se rever a estrategia baseado nos mega-projectos - a estrategia tenha essencialmente mudado, pois no horizonte se perspectivam, de forma mais persistente do que outras estrategia mais inclusivas, a tonica do dsenvolvimento de mais mega-projectos (Areias Pesadas Moma e Chibuto), contrucao de mais grandes projectos hidroelectricos como a Barragem de Mpanda Uncua, talvez com a Barragem Norte de HCB, refinaria em Nacala ou noutra loaclizacao, etc... (continua)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Economista Chefe do Banco Mundial para Africa e o puzzle mocambicano (1)

Shanta (nick de Shantayanan Devaranjan) esta intrigado como se se explica um crescimento economico mocambicano prolongado, medido pelo tx. cresc. do PIB de cerca de 8% nos ultimos 10 anos (ou mais) se tem mantido se o sistema financeiro esta ainda longe de ser acessivel pela maior parte dos agentes economicos locais, como se reporta em varias pesquisas crediveis levadas a cabo no pais.

Isto leva imediatamente a questao de quais as fontes principais do crescimento do PIB em Mocambique. 2-3 pontos percentuais, dos 7-8% de tx. cresc. PIB sao devidas aos mega-projectos, ficando o restante crescimento, de cerca de 5%, explicada por outros factores.

Ja se identificaram os principais factores que pesam em atingir essa taxa de crescimento:

1- A baixissima base de partida. O PIB no inicio do periodo de paz andava a volta dos 100US$ per capita. Crecer 5% significava aumentar 5USD ao percapita annual, incluindo no calculo da media os mega-projectos (temos que deduzir a taxa de crescimento populacional, de cerca de 2.4% anuais entao), ou apenas 2.5% sem a inclusao mencionada.

2- Os mega projectos respondem por cerca de um terco das taxas de crescimento do PIB. Sabemos ja que os efeitos dos mega-projectos no resto da economia e sociedade tem sido minimos (alguns efeitos na construcao durante os periodos deinstalacao, por exemplo podem ser citados, mas pouco mais), por varios motivos - negociacoes deficientes, que impactou nao so em aspectos fiscais (concessoes assimetricas aos mega vs. pme) e nos retornos de factores nacionais (factor terra, trabalho, por exemplo), mas a prevalencia de outras deficiencias, ou melhor mesmo ausencias, de estrategias de ligacoes mais ou menos mandatadas, sem entrar na micro-gestao, dos mega projectos com as PMMEs, fraqueza do empreendodorismo nacional, historicamente reprimido desde o periodo colonial ate ao advento da nova constituicao do fim da decada de 90, etc.

3- A agricultura tambem contribuiu para as txs. de cresc., mas predominantemente pelo aumento das extensoes cultivadas, por razao do estabelecimento da paz e, em segundo lugar, pelas taxas de crescimento populacionais, num contexto de (muito) limitado acrescimo de postos de trabalho nas zonas urbanas. Nao foi por inovacoes tecnicas ou tecnologicas, por melhoramentos significativos das redes e sistemas de comercializacao, ou por melhor acesso a insumos e (micro-)credito, etc, que poderiam er tido impacto na melhoria da qualidade de vida dos produtores em causa.

4- Nao muito citados, mas de varias maneiras documentada a existencia do fenomeno causador, sao os efeitos de branqueamento de parte dos capitais e valores derivados de acrtividades ilicitas e ilegais - economia da droga, comisssoes da grande corrupcao, etc. A aplicacao de alguns destes valores em bens de consumo conspicuos, projectos de show-off, em certos casos a sua aplicacao em actividades comerciais e economicas levaram em certas zonas (norte, parte de maputo) a alguns efeitos com certa dinamica, que pode ser de curta duracao se se mantiver, em se mantendo, no tipos de actividade com efeitos pouco multiplicadores.


Entao para o economista chefe Shanta, o puzzle esta em o crescimento se ter mantido sem haver um sistema financeiro funcional e efectivo. Tentaremos nas proximas partes analisar detalhadamente a natureza do puzzle economico mocambicano - sera que os termos em que o puzzle esta formulado corresponde a realidade que ele pretende questionar, quais os aspectos que precisamos de ter em conta para analizar a problematica subjacente, e tentar chegar a algumas conclusoes sobre o assunto.

Ate breve (espero! - depois de amanha vou a uma conferencia regional organizada pela OSISA sobre impactos da crrise financeira global na Africa, e em particular na Africa Austral, depois na semana de 24 de Novembro volto a Nampula para a assessoria ao Plano Estrategico da Provincia de Nampula ate 2020) para contribuir para este debate, que nao e original - mas que e sempre importante, nao porque levantado agora por alguem que faz parte da instituicao de que faz parte, mas por merito proprio.

terça-feira, 4 de março de 2008

Serão as políticas do BM e FMI as causas dos nossos sismos sociais?

O jornalista Carmona do SAVANA, produziu um artigo aparecido nas páginas centrais da sua edicão da semana passada, dia 29 de Fevereiro de 2008, que incluia na sua segunda parte uma entrevista comigo. Transcreve-se com a devida vénia partes do mesmo:

Serão as políticas do BM e FMI as causas dos nossos sismos sociais?

Quando passam pouco mais de duas décadas, após a introdução do Programa de Reabilitação Económica (PRE), e do controverso o pacote de medidas aconselhadas pelo Banco Mundial (BM) e Fundo Monentário Internacional (FMI), para tirar o país do apatia económica, em certos círculos divergem as leituras sobre se foi feita a melhor opção, ao alinhar com o liberalismo defendido por aquelas duas instituições da Brettons Woods.

Tal discussão sobre o modelo de desenvolvimento seguido pelo país nas últimas duas décadas foi reacendido com os multiplicados protestos que se registam um pouco por todo o país com destaque para a cidade de Maputo, Xinavane (Manhiça) Jangamo (Inhambane) e Chimoio (Manica), relacionados com o aumento do preço de transportes, bens essenciais e a impunidade que supostamente gozam os criminosos.

Em causa estariam os ganhos e malefícios da a adesão do país, há duas décadas, às políticas do BM e do FMI. Por exemplo, os fortes protestos em Maputo começaram com as manifestações contra o aumento dos preços dos chapas, que passaram a ter o monopólio do sector nas zonas urbanas, supostamente como consequência das medidas de liberalização económica implementadas em 1987, sob recomendação do BM e FMI.

Mas outros negam rendondamente uma relação de causa-efeito, entre as medidas de liberalização económica do BM e FMI e os sismos sociais que estamos a viver. Dizem que é preciso olhar para as políticas internas, porque Moçambique sofre de uma "crise de produção interna de políticas com uma visão nacional e endógena, consistentes, efectivas e inclusivas", diz o economista Dipac Jaiantilal. O processo decisório está debilitado neste aspecto particular, e isso conduz a uma situação em que todo o sistema se torna também débil.

Breve historial (...) Transportes

(...) a liberalização quase total dos sector dos transportes teve um efeito contraproducente: o Estado ficou refém dos transportes semicolectivos dos passageiros, vulgo chapa 100. Os protestos de Maputo da superterça-feira são prova mais do que evidentes. (...)

Receitas envenenadas

Apesar de ganhos obtidos por Moçambique do ponto de vista de macroeconómico, com a adopção do programa estrutural, o conhecido PRE, alguns analistas em Maputo, entendem que as políticas aconselhadas pelo BM e FMI demonstraram anos depois como tendo sido contraproducentes. "Muitas das prescrições destas instituições multilaterais, passados estes anos, evidenciaram-se como tendo sido autênticas receitas envenenadas.
Vejamos: privatizamos empresas, mas no seu lugar não foram repostas as médias e pequenas empresas, que de
facto geram empregos e impulsionam de forma real a economia", escreveu recentemente, Rogério Sitoe,
director do Notícias, na sua coluna "Conjecturas". O jornalista acusa o BM e o FMI de terem "aconselhado
o Governo a destruir a indústria de caju, sob o argumento de que era mais vantajoso para Moçambique
investir na industrialização e dedicar-se exclusivamente à exportação da castanha não processada".
"Falou-se e remeteu-se pelo menos 10 mil pessoas para o desemprego", sublinha o jornalista. Nas zonas
rurais, a ausência de políticas no sector agrário, "que, diga-se de passagem, nunca foram prioridade nas
receitas do BM e do FMI, excepção feita à produção de matérias-primas, contribuiu sobremaneira para
empobrecer o campo e catapultaram a migração para as cidades, sobretudo dos jovens", assinala Sitoe.
"Naturalmente, são várias as causas profundas que geraram esta convulsão (…): a forma religiosa como
aplaudimos e aceitamos as prescrições do BM e FMI, para um ajustamento estrutural mais preocupado com
questões macro-económicas e menos nos efeitos sociais, versus a nossa dificuldade de negociarmos para a nossa realidade objectiva e para o nosso destino", aponta Sitoe.

Sindicalistas

A OTM-CS faz um balanço menos optimista em relação aos ganhos trazidos pela liberalização económica. "Tivemos perdas. É preciso e é fundamental reconhecermos isso. As expectativas dos trabalhadores e da sociedade em geral relativamente à qualidade de vida eram muito maiores do que o que se conseguiu com as mudanças", defendeu Franscico Mazoio, porta-voz da OTM em debate recente na rádio estatal. Mazoio apontou a perda de muitos postos de trabalho, como consequência do rápido processo de privatização de empresas a favor de pessoas sem capacidade, como um dos aspectos negativos da viragem económica feita pelo país nos finais da década de 1980. "Muitos trabalhadores perderam os seus empregos e isso pode entender-se olhando para o sector informal, que cresceu de uma forma bastante ampla", frisou Mazoio. Por outro lado, apesar de as estatísticas indicarem que o PIB cresceu, "o salário mínimo que vigora neste país ainda não cobre 50% das necessidades básicas de uma família e isto é um indicador básico da avaliação do processo", enfatiza.
Mesmo tecendo duras críticas, Mazoio vê alguns resultados positivos nas reformas económicas introduzidas no país, como na educação e na saúde, "onde muitas localidades sem cuidados sanitários têm hoje postos de saúde". (...)

Houve crescimento, mas não desenvolvimento

Em entrevista concedida ao SAVANA, o professor da Economia Monetária do mestrado em Desenvolvimento Económico da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, Dipac Jaiantilal, indica que é verdade que Moçambique regista, desde meados da década 90, crescimentos ao nível macroeconómico, mas que tal não significa necessariamente desenvolvimento.

"Desenvolvimento não significa apenas crescer em termos macroeconómicos, exportações e PIB real global, ou mesmo per capita. Há outras dimensões como questões não monetárias do desenvolvimento, como o acesso aos serviços essenciais, por exemplo, saúde, educação, justiça, transportes e vários outros que estão envolvidos neste conceito mais amplo que é o desenvolvimento".

Por outro lado, Jaiantilal aponta outros aspectos que é preciso considerar na questão de desenvolvimento que têm a ver com o grau das desigualdades sociais, porque, segundo ele, estas têm importância no sentido de que influenciam o sentimento de inclusão e participação das pessoas nos frutos da evolucão sociedade. Para ele, as desigualdades sociais deterioraram-se nos últimos anos em várias regiões do país, como o provam os respectivos números do coeficiente de Gini e Theil resultante dos Inquéritos ao Agregados Familiares (IAF) de 2002-3 comparativamente aos do IAF anteror, de 1996-7, e os resultados do Trabalho de Inquérito Agrícola (TIA) dos últimos anos.

Quanto ainda à participacão, "Os mecanismos de participação dos cidadãos na vida do país não têm que estar apenas bonitos no papel. Tem que funcionar", frisou, Jaiantilal, um antigo macro-economista sénior do Banco Mundial no período 2000-2003, e Director de Estudos Estatísticas do Banco de Mocambique até 1990.

Segundo Jaiantilal, vários estudos têm demonstrado que o propalado crescimento eonómico se restringiu apenas a certas camadas da sociedade. Foi, segundo ele, um crescimento que criou poucos empregos novos, e falhou em criá-los em número mínimamente necessário para fazer face a toda demanda que existe, derivada, não só do processo de privatização das empresas que levou ao despedimento de dezenas de milhares de trabalhadores, mas também do crescimento demográfico que o país assiste.


Todavia, para o também Coordenador Científico do Instituto de Investigacão para o Desenvolvimento José Negrão, conhecido ctambém como Cruzeiro do Sul, regista-se avanços em algumas áreaas sociais como p.e. na área da Educação, em termos de acesso ao ensino primário, mas persistem problemas ao nível da sua expansão, por exemplo, no ensino secundário e as outros níveis de educação. "Este grupo de estudantes que acaba o ensino primário e que não tem lugar na ensino secundário, acaba por ter que encontrar outras formas de sobrevivência. Imigrando, por exemplo, para os grandes centros urbanos, e dedicando-se como muitas outras mulheres e homens ao sector informal".

Aliado a questão da educação, o professor é igualmente crítico às políticas agrárias seguidas pelo Estado, que para ele não foram das mais bem sucedidas. No seu entender, nos vários anos de implementação dos programas de reajustamentos económicos, o país não conseguiu resolver o problema de como o sector familiar pode, produzir e comercializar mais por hectar de terra para que ela possa se beneficiar ainda mais.

"Porque é que este processo não avançou? Como é que nunca resolvemos o problema da comercialização agrícola? Havia o sistema dos cantineiros que no período colonial, embora com os seus problemas de exploração nos termos de troca, mas conseguiu levar ao mercado a produção camponesa. Eliminado o sistema estatal práticamente nada foi estruturado quer em termos de vias de escoamento quer em termos de um sistema eficiente e incentivador da producão dos pequenos agricultores, para colmantar as falhas do mercado existente. Até hoje continuamos a ter problemas de comercialização dos produtos agrícolas o que não incentiva as pessoas a melhorarem a produtitividade. Porquê produzir mais e melhor se a produção vai apodrecer no campo? Portanto, estas questões não foram devidamente resolvidas e então há uma migração campo-cidade cada vez maior para as cidades.

Hoje uma das grandes características do problema da pobreza em Moçambique, e são vários os estudos que têm demonstrado isso, é que a pobreza urbana está a aumentar ainda rapidamente do que a já proverbial pobreza rural. E a situacão seria pior se não tivesse havido uma Lei de Terras favorável à seguranca dos direitos costumeiros de ocupacão e uso de terras. Mas note-se que com o aumento da procura de terras pelo sector privado para acambarcamento ou para projectos ligados ao bio-diesel e outros, há cada vez mais uma disputa de terras que ameacam estes direitos legalmente reconhecidos, mas relativamente mal protegidos na prática", entende Jaiantilal.

Pobres da zona rural, para a zonas urbana

O professor defende que a situação da pobreza urbana em Maputo (recentemente abordada por uma equipa de pesquiadores que incluia uma Investigadora do Cruzeiro do Sul, numa pesquisa intitulado “Xiculungo- Pobreza Urbana em Maputo”) é mais uma amostra de que a situação está não é boa, em termos de precariedade e vulnerabilidade de uma grande maioria dos citadinos do Grande Maputo, o que pode resvalar para situações de convulsões sociais como os que temos estado a assistir recentemente.

Indica, por exemplo, que os dados do Inquérito aos Agregados Familiares, levado a cabo pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) desmonstram o aumento das disigualdades em Maputo e da falta de criação de empregos. "Esses dados já existem. Só quem não os lê, no sentido de usá-los para determinar políticas mais adequadas para resolver os problemas que existem, é que pode ficar surpreendido com as situações mais recentes que têm acontecido no nosso país e em particular em Maputo", frisa.

No entender do economista, o problema principal é que parece haver uma certa preocupação das pessoas que estão nos cargos de direccão do aparelho estatal de usar o argumento da mão estranha" para se refugiarem e não fazerem análises e tomar medidas apropriadas que poderiam depois ser descutidas com os parceiros de internacionais de cooperacão. "Se calhar, mais do que puro comodismo, ou outra coisa, será uma questão dos interesses particulares que estas pessoas têm nos nossos ministérios de tentar usar esses locais do Estado para resolver os seus próprios problemas e não os problemas do povo".

Para ele, tem que haver um processo credível e eficaz em problemas e de políticas que sejam descutidas e amplamente partilhadas com os parceiros sociais, nomeadamente, sindicatos, sociedade civil e com todos agentes económicos de forma a que estas forças vivas se apropriem das solucões a que se forem chegando.

Sobre os alegados condicionalismos impostos por doadores e instituições internacionais, como o BM e FMI, Dipac Jaiantilal entende que é evidente que os parceiros nternacionais de cooperação irão defender o interesse de quem detém os fundos de ajudas, mas é necessário que o Estado e as forcas vivas mencionadas se façam sentir através de discussões e diálogos sérios, e não “para inglês ver”.

Citou o exemplo da indústria do açucar, onde estava em causa vários milhares de emprego. "Quando algumas forças internas conseguiram, de facto, que o Governo pegasse nesta questão a sério, foi possível discutir e evitar o colapso da indústria do açúcar em Moçambique".

"Eu, por exemplo, já estive a trabalhar em organizações internacionais, como o Banco Mundial. Conheço essas instituições por dentro, sobretudo, as margens de discussão e negociacão. Só que ela (a discussão) deve ser bem fundamentada. É preciso fazer um trabalho de casa", aconselhou.


Questionado se é ou não é lícito fazer uma relação de causa efeito entre as políticas do BM e FMI e as convulsões sociais que tomaram conta do país, Jaiantilal entende que não é tão linear. "Há uma responsabilidade em parte dessa ideologia neo-liberal no sistema económico mundial deste período dominado pelas forcas de um certo tipo de globalizacão excludente, que assumiu a ascendencia desde a era de Reagan, nos Estados Unidos, mas é preciso reconhecer que essa ideologia até já foi absorvida por muitos agentes do Estado, que ingenuamente ou não, parecem acreditar que tudo deve ser entregue ao sector privado.

Infelizmente, houve uma série de problemas no período anterior que levaram a uma exagerada concentração de produção no sector estatal, conjugada com os problemas de guerra. Então o pêndulo, na mente de muitos moçambicanos, virou no sentido oposto, o de virar para um mercado totalmente livre e aberto, quando nós sabemos que o mercado deve ser, não só regulado, mas também, onde não existe condições para esse mercado funcionar de forma completa por várias falhas de mercado, o Estado assumir o seu papel e criar condições para que os problemas sejam resolvidos e para que simultâneamente o sector privado possa desempenhar o seu papel. No entanto, não vejo na actuação do nosso Estado essa reflexão. O que existem é uns lançarem a culpa sobre os outros, consoante as conveniencias políticas do momento".

Agora já temos um Estado refém dos chapas?

"Em relação a questão dos transportes o Estado de facto eximiu-se das suas responsabilidades no tocante aos transportes públicos urbanos (mas não só). Há muito tempo se fala dos problemas que existem em relação ao “chapas”, mas as soluções nunca foram trazidas. Nunca houve interesse real para que se criassem capacidades, recursos e se juntassem os fundos requeridos para resolver os problemas. Não é que o país hoje não tenha fundos do orcamento - tanto internos, como da cooperação - com os quais possam-se fazer alocações que reflectam melhor as prioridades internas do país. Nos anos recentes os doadores estão a optar pelo "budget support" (transferência de fundos sem uma alocação pré-definida para projectos específicos) ou seja transferir recursos directamente para o orçamento do Estado em volumes cada vez maiores. Quem elabora o orçamento do Estado prevê um conjunto de receitas, faz a alocação por sectores em termos de despesas por prioridades, em termos de actividades específicas, por programa de desenvolvimento e de redução de pobreza. Os Estados têm neste sistema uma margem de manobra maior que nos sistemas de assistencia internacional anterior, margem que deveriam usar melhor, mas que não pelo que nos é dado ver, não estão a usá-la devidamente, e não será por preguiça mental, mas quicá porque não há interesse real dos agentes do Estado.

Em qualquer país digno desse nome não é possível em cidades grandes metropolitanas como Maputo não haver transportes públicos, para as classes mais desfavorecidas deslocarem para o centro da cidade a partir dos seus locais de habitação que geralmente estão na periferia a precos acessíveis. Esses percursos são importantes para vida económica das cidades e são importantes para a sobrevivência desses cidadãos. Portanto, tem que haver um subsídio implícito ou explícito. Qualquer Governo tem a sua frota de transportes públicos. Noutros países, nas zonas metropolitanas, os transportes mais baratos até são os metros, ou os próprios autocarros que pertencem a empresas públicas ou municipalizadas. A questão da gestão é possível resolver e contratar uma gestão eficiente para esse serviço público. Nós conhecemos serviços públicos eficientes em países africanos, como, por exemplo, a África do Sul. Nos Estados Unidos, o país mais capitalista do mundo, cada cidade de cada Estado tem um serviço público que é detido e gerido pela municipalidade. Não são desenvolvidos sómente pelo sector privado porque os servicos básicos não são lucrativos.

Então qual é a solução para Maputo e outros centros urbanos de maior concentração populacional?

Ou o Estado toma conta do serviço, ou combina com o sector privado. Esta última é a melhor solução, para que haja uma competição para que o próprio sector estatal mantenha a sua própria eficiência. É isso que os países geralmente fazem como solução para os problemas do transportes urbanos. Portanto é preciso pôr de lado a ideia de que o transporte só pode ser funcional se for com o sector privado, porque isso não acontece em parte nenhuma do mundo. Ou se acontece cria problemas que estamos a ver agora em Maputo em que de facto se atirou a responsabilidade para o sector privado, mas não se criaram mecanismos de compensação que permitisse que esse sector privado pudesse disponibilizar esse serviço a preços mais acessíveis.

Mas o Governo já avançou com uma política de compensação…

O que tem havido ao longo das várias crises que têm ocorrido ao longo dos anos é havere facto, uma certa cumplicidade do Estado ora com o sector privado dos transportes, ora com o público utente, consoante as vantagens políticas que isso trazia para o momento. Mas não há uma política coerente e clara na (dinâmica de) resolução desse problema.

Não se tem falado de outras questões adjacentes que precisam de uma melhor equacionamento para a resolucão da carestia do preco de combustível, fonte primária dos sucessivos aumentos. Tais questoes relacionam-se com a alteracão da forma e fórmula de ajustamento automático dos precos em funcão do preco internacional, com a incidencia dos impostos sobre o combustível que obrigam mais do que duplicar o preço ao consumidor, e outras questões no domínio de políticas públicas que, aliás a maior parte dos governos dos países não produtores de petróleo está a equacionar e a resolver como lhe compete.

Não há dúvidas que estas negociações estão sendo feitas sob pressão e as soluções que saírem não podem ser esperadas como sendo as melhores. São soluções de recurso e cada parte parece querer transferir responsabilidades para outra. Mais uma vez o Estado parece querer transferir responsabilidades suas para as associações - nem sempre elas-próprias operando com transparencia suficiente. Neste momento não estão claras, não estão transparentes as soluções encontradas.

Os órgãos noticiosos, por exemplo, noticiaram que houve um concurso – lancado pelaa Associacões de Transportadores por aqcordo com o Governo - em que a Petromoc e a BP apresentaram propostas. Isto de facto seria inconcebível numa solução normal, e que seria escolhida uma delas como distribuidora exclusiva. Criar-se mais um monopólio? A teoria económica demonstra que os monopólios só trazem menores quantidades em maiores preços, para não falar das dificuldades se os chapeiros abastecessem numa só empresa. Essa solução não tem coerência económica. É contra as políticas de competição. E veja-se a regionalizacão das solucões, quando por exemplo a Beira (e outras cidades bem como outras rotas interurbans) deveriam também ser bem equacionadas nas solucões a encontrar.

A gestão desse problema não pode ser feita de forma ad hoc. Está sendo feita sob pressão porque no passado não se fizeram esses estudos. Houve tempo suficiente desde as primeiras manifestações que ocorreram nos arredores de Maputo há varios anos atrás, até as mais recentes que são no centro de Maputo e tem estado a expandir-se pelo país. Houve tempo suficiente se como seria normal tivesse havido real interesse para resolver e equacionar da mesma forma como o que os outros países fazem. Há várias soluções possíveis. Há vários estudos sobre soluções que se tem adoptadas pelo mundo fora e que passam pela revisão da forma de ligacão entre os precos internacionais e internos, a questão da tributação do petróleo das margens das gasolineiras, do balanço entre os sistemas privados e estatal, neste caso específico na área dos transportes de passageiros, incluíndo política de carga, política de preços na área de transportes, porque tem repercurções importantes, não só na vida das pessoas, mas também nos preços em que os produtos vão chegar ao resto da população".

Algumas Questões de Integracão Regional para Mocambique (2a. parte)

O Jornal Notícias pôs-nos algumas questões ao redor do tema, que publicou em Marco de 2007, que passamos a citar:

Questionamos a Dipac Jaiantilal se não estaria a ser bastante fatalista para o processo de integração ao que começou por responder: não estou a dizer que o comércio é mau. Acho apenas que é bastante duvidoso que a abertura das fronteiras possa ter um efeito líquido positivo para Moçambique, porque 93 porcento dos produtos que serão liberalizados e que tinham taxas entre 25 a 15 por cento ficarão a zero. Com isso o País vai passar a importar mais da África do Sul.

Por outro lado, por mais que essas importações aumentem não trarão nada do ponto de vista de balança de pagamentos. Portanto, teremos uma balança comercial muito mais negativa em relação a África do Sul do que ela já é no momento. Isso irá ter um efeito negativo na balanca de pagamentos, na sua componente de transaccões correntes.

Acrescenta que o país vai importar mais porque o sector produtivo não está capaz de produzir e exportar mais.

Do ponto de vista de receitas aduaneiras, elas vao se reduzir significativamente, e isto vai agravar o défice fiscal doméstico.

Sobre o argumento de que as taxas do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) vão se manter, a fonte reconhece que tal pode acontecer, mas é preciso ver que elas estavam contabilizadas e nunca vão compensar a perda das tarifas alfandegárias.

Nos últimos tempos as autoridades moçambicanas têm estado a dizer que vão compensar a perda das receitas alfandegária com uma tributação mais alargada em Moçambique.

No entanto, a nossa fonte entende que o sector privado está neste momento a ser mais fortemente taxado que nos países vizinhos e há estudos que provam isso. Segundo ela, se se taxar ainda mais do que está agora pode se ter um desaire para o sector industrial.

Se se pensa em alargar essa tributação para o sector informal também temos que ter um cuidado extremo ao pensar nisto, porque, para já há certas taxas mínimas que esse sector vem pagando pelo que se se agravar para um certo limite, este sector que tem sido uma válvula de escape para a resolução de problemas de desemprego na cidade, vai deixar de existir e a pressão social vai se tornar cada vez mais forte em termos de pessoas incapazes de prover para o seus sustento e, portanto, vão ter que passar a encontrar formas e talvez ilícitas de sobreviver o que pode elevar o crime e outros males sociais.

O outro aspecto é que os próprios agricultores camponeses ou do sector privado, que se não forem apoiados serão, repentinamente, sujeitos a uma pressão concorrencial forte com um mercado abastecedor a preços mais baixos, e os pequenos, médios e agricultores familiares podem ir a bancarrota e o êxodo do campo para a cidade pode aumentar. A fonte alerta para que não se tenhamos ilusões quanto a isso.

Sobre o que fazer tendo em conta que faltam apenas quatro meses para a abertura quase que total das fronteiras, Dipac Jaiantilar responde: Para mim o mais sensato seria fazer o que Angola fez. Parar e estudar mais os nossos problemas porque o sector privado não é em seis meses que se vai preparar. O próprio estado, a única estratégia que tem, e eu não chamo estratégia, mas um elemento táctico de tentar diminuir os efeitos, embora duvide da eficácia desse elemento, é a campanha do “made in moçambique”.

Penso que dado o grau de pobreza que existe em Moçambique as pessoas não vão sacrificar o bolso para um produto nacional e com problemas de qualidade, diz Dipac Jeiantilal.

A fonte prossegue afirmando que os estados membros da SADC estão consciente de que as condições não são as mais propícias daí que as primeiras notícias que vem da última cimeira de Lusaka fazem uma ênfase muito grande na criação das condições básicas, infra-estruturais para se criar uma competição desse tipo na região.

O economista disse mais: Penso que é preciso aprofundar também o que é que essa integração significa nas nossas condições e arranjar uma visão desenvolvementista que nos leve a ver o que é temos que fazer para uma integração nacional para depois pensar na região.

Temos que procurar, primeiro, resolver os problemas dos preços da água e da energia a nível interno, o custo do capital de financiamento, porque nós estamos numa situação pior na região.

Durante a conversa, Dipac Jaiantilal disse que mesmo perante este quadro guarda ainda alguma esperança: Nós vamos a tempo de corrigir os erros porque esse processo é voluntário e se o país não estiver em condições é preferível pedir mais tempo para resolver estas questões que não são fáceis de resolver em tão curto espaço de tempo, mas que são resolvíveis desde que haja uma vontade política.

No seu entender há neste momento, assimetrias na região que poderão levar a países como Moçambique a condições muito mais desvantajosas que antes desta liberação. “Portanto, não confudamos SADC - que é Comunidade de Desenvolvimento dos Países da África Austral - com liberalização porque isto não é a mesma coisa”, clarifica Dipac Jaiantilal.

Mocambique e Integracão Regional: Esta Integração não será antes um Alargamento da SACU?

Em entrevista ao Jornal Notícias, publicada a 4 de Marco, 2006, defendi uma postura cautelosa em relacão à forma como está sendo concebida a Integracão Regional na SADC. Leiam-se a seguir algumas partes:

"Integração não será alargamento da SACU? - Questiona Dipac Jaiantilal, economista"

CASO a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral não tome a sério a questão da integração regional, o que passa pela criação de condições básicas para o seu desenvolvimento, os seus membros correm o risco de desenvolver a mesma dependência passada aos países da SACU, em relação à África do Sul. Quem assim o diz é o Prof. Doutor Dipac Jaiantilal que também defende que não se pode confundir a SADC com a liberalização comercial.

No seu entender é preciso se ter em conta que os interessados na liberalização de que se fala agora estão reduzidos à comunidade da SACU que tem a África do Sul mais o Lesoto, Botsuana, Suazilândia e Namíbia. “Portanto está se a tentar expandir esta união aduaneira atraindo mais candidatos e o primeiro aqui seria Moçambique”.

Recorda que quando o presidente do Banco de Reserva da África do Sul, Titos Mboene esteve em Moçambique, no ano passado, tentou lançar o debate sobre a área monetária e disse que a fórmula viável era que os países como Moçambique se juntassem a aquilo que é a área da SACU.

Dipac Jaiantilal entende que essa discussão pouco se tem feito e “nós vemos que 2008 está próximo, mas é preciso compreendermos que este processo é feito por etapas e temos que entender se será realista nós fazermos uma união aduaneira em 2010 e depois termos um banco central comum e criarmos uma moeda única anos depois”.

Para a fonte, não tem havido grandes discussões, mas a verdade é que a África do Sul está a tentar fazer o alargamento da SACU e da zona monetária do rand pelo que questiona: será que é isto que interessa Moçambique. Será que a sequência que era defendida pela Linha da Frente não é importante?.

Ele prossegue dizendo que a via sensata era criar-se as bases de desenvolvimento interno para depois nos expormos, porque, “os nossos documentos internos” são de criar um Moçambique desenvolvido daí que temos que ter cuidado quando pomos o comércio internacional a frente das condições básicas para o desenvolvimento.

Aquele macro-economista também alerta para o facto de a história mostrar que através da SACU, a África do Sul conseguiu “minar” a industrialização dos países a ele integrados tendo para isso conservado as maiores vantagens deste mercado, desde as melhores infra-estruturas dentro do seu território, c/ligações para mercados, uma base industrial inicial, adquirida em condições altamente proteccionistas, que permitiu ser uma fonte de difusão inovação de tecnologias.

Acrescenta que a visão da SADCC quando ela foi criada era uma perspectiva desenvolvimentista no verdadeiro sentido da palavra. Entendia-se que o comércio não gere de imediato o desenvolvimento. Ele pode ser uma componente importante, mas é necessário, numa primeira fase, criar as bases mínimas para que os países possam negociar e criar vantagens para crescer.

Esta é que, segundo Jaiantilal, era a perspectiva inicial dos países da linha da frente que queriam que as suas economias reduzissem a dependência em relação a África do Sul.

Mesmo assim, o Professor entende que começa a haver uma reflexão séria nalguns países e exemplo disso é que Angola acaba de anunciar que não iria se integrar neste processo porque precisa de tempo.

“Para mim isso é muito sensato e os outros países da região como a Tanzania optaram por integrarem outros blocos do seu nível de modo a ganhar mais tempo. A Zâmbia está na COMESA, portanto, são países que sentem logo a partida que não precisam de se expor dramaticamente a uma situação dessas”.